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17.12.09

O Cinzento Entre o Preto e o Branco (III)

Já que a hipótese de acabar com o casamento entre o Estado e cada um de nós parece estar fora de causa, temos de avançar para cenários "second best". Se o casamento homossexual servir para estender o conceito de família, sou a favor. Se o casamento homossexual servir para alargar o acesso aos benefícios directos e indirectos do casamento, sou a favor. Se o casamento homossexual servir para melhorar as hipóteses de uma adopção bem sucedida, sou a favor. Se tudo isto for feito em nome da igualdade, so be it. No entanto, há duas questões que é preciso considerar.
 
Em primeiro lugar, temos o que o Owen Harries chamou o "valor latente" das instituições. Ou seja, o facto de, muitas vezes, não conseguirmos conhecer verdadeiramente o papel de uma qualquer instituição até termos acabado com ela, altura em que é demasiado tarde para voltar atrás. Olhando por exemplo para o que foi feito com o divórcio na hora, é fácil perceber o perigo de olhar para um governo socialista medíocre como um defensor da instituição do casamento.  

Em segundo lugar, ao não assegurarmos que existe realmente um consenso social tão alargado quanto possível sobre esta matéria, corremos o risco de dar o golpe de misericórdia numa instituição que já anda pelas ruas da amargura. O simples facto de alargarmos o conceito de casamento a uma união que a maioria da sociedade portuguesa considera ser, na melhor das hipóteses, uma anedota, pode ser o suficiente para destruir definitivamente a legitimidade social do próprio casamento.

Há maus argumentos para se ser contra o casamento homossexual mas nenhum deles justifica a elaboração de políticas sociais ao sabor do vento, que é como quem diz, em jeito de campanha eleitoral para as eleições que se avizinham.  

(imagem daqui)

16.2.09

Limites Telegénicos da Direita: Conservadorismo e Moralismo

Um moralista pode ser definido como alguém que nos quer convencer (se possível obrigar) a viver a nossa vida de acordo com princípios morais que o próprio defende, mas que não segue necessariamente. O problema do conservadorismo como programa político, e não como método, é o facto de não ser dissociável desta definição de moralismo. E, se há coisa que ninguém atura, é um moralista. A começar pelos próprios.

13.11.08

Da solidão IV

A grande vantagem da exiguidade do CDS é a de que só pode ser povoado por pessoas que não precisam verdadeiramente do partido para nada. Para além de uma acanhada minoria com cargos remunerados, o resto do partido é composto por um grupo impassível com tempo para sacrificar. No entanto, não podendo o partido reclamar titularidade sobre esse tempo, é natural que o CDS tenha tendência a esfarelar-se sem um objectivo agregador, sem um sucedâneo do poder.

A cruzada para descobrir um alvo comum a eleitores, militantes de base e "notáveis" já levou o CDS a todo o tipo de paragens, umas mais recomendáveis que outras, com uma reclamação recorrente cada vez que os resultados ficavam aquém dos objectivos: a do regresso aos valores. O partido, ou pelo menos o partido profundo e conservador, quer ideais, mais particularmente ideais morais.

O problema deste eterno retorno a um certo moralismo é que não chega para conquistar votos para além dos da base tradicionalista do CDS. Isso significa que o partido precisa de uma agenda, uma agenda que só pode nascer do liberalismo e do ideal social da democracia cristã. Porquê? Porque a tradição conservadora é, ou devia ser, sobretudo reactiva, despertando apenas para fazer face a ameaças às instituições e não para propor transformações sociais. Ou seja, porque o conservadorismo não é um programa político, é um método.
 

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