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8.3.09

Limites Telegénicos da Direita: a Cobardia

Há quem queira infamar o moralismo acusando-o de intolerância mas, para o moralista, a intolerância não é mais do que um sub-produto desprezível da convicção. Ser um fanático tem a vantagem de minimizar os tremores. Recusar o fanatismo, andar à deriva nas águas mornas do compromisso, pode ser panegírico mas tresanda a medo, a calculismo. Nesse aspecto, a cegueira também tem outra característica decisiva: a sinceridade. Como se sabe, não há nada mais eficaz, mais tocante, do que um político convictamente "verdadeiro".

Curiosamente, a nossa direita parece não estar particularmente interessada em defender aquilo em que acredita. Tem simultaneamente medo do peso eleitoral do centro e medo de mostrar as suas verdadeiras cores. Tem a fama sem ter o proveito mas gostava mesmo era de ter o proveito livrando-se da fama. Face ao preconceito contra tudo o que é rotulado como sendo de direita, a resposta é alternadamente a vitimização, a paralisia ou o malabarismo eleitoral. Nunca a ousadia de quem acredita verdadeiramente nas suas próprias propostas. É este o resultado de confundir opiniões com princípios e posicionamento com liderança.

7.3.09

Limites Telegénicos da Direita: a Hipocrisia

Nos anos noventa, quando se começou a falar em reengenharia, uma das justificações para refazer processos produtivos era uma alteração no tipo de mudança que assolava o mundo. Nos bons velhos tempos, a mudança era violenta mas esporádica, agora tinha passado a ser gradual mas constante. Tornou-se necessário reinventar a roda. Para se sobreviver neste novo sistema era preciso substituir a coerência pela consistência. À direita, este género de raciocínio levou a ideologia e deixou o populismo. A "vontade do povo" deixou de ser moralmente neutra.

O problema é que o "povo" é contraditório e a sua "vontade" não existe. Isto obrigou a uma tentativa de construir um eleitorado em forma de manta de retalhos. Com algum cinismo, a hipocrisia pode ser descrita como uma forma de conjugar liberdade económica com conservadorismo social, tradição e dinamismo, reforma e continuidade. No entanto, também pode ser descrita de outra forma. Pode ser descrita como vivendo em concubinato com esse outro limite telegénico da direita, o moralismo. Uma relação íntima que nasce da associação forçada de elitistas e desfavorecidos, de católicos fervorosos e homossexuais, de púdicos e abortos discretos. A moral pública da direita morre às mãos dos seus pregadores. Sendo de impossível de praticar, é impossível de defender.

4.3.09

Bipartidarismo II

Um dos argumentos a favor dos pactos de regime é a ideia de que só através de um consenso alargado é possível fazer reformas estruturais. É um argumento aparentemente razoável mas, ao defender a utilização de pactos de regime para chegar a esse consenso, secundariza o instrumento principal que temos para esse efeito: as eleições. Os acordos partidários deveriam originar na vontade dos eleitores e não numa tentativa de barricar votos. Além de induzir a apatia, esta corrida para o centro é perigosa. Afinal de contas, só há verdadeiro consenso quando não há escolha.

É aceitável que haja consonância quanto à necessidade de reformas estruturais. O que já não é aceitável é que haja consonância quanto ao conteúdo dessas reformas. A diferenciação, mais do que assegurar uma verdadeira representatividade, é um instrumento de controlo democrático. Uma oposição eficaz não é apenas uma forma de supervisionar a actuação do governo, é concorrência. Dizer que o governo devia fazer mais, ou fazer melhor, ou até fazer menos, é supervisionar. Dizer que o governo devia fazer diferente é fazer concorrência. Abdicar de fazer concorrência é trair o eleitorado.

18.2.09

Limites Telegénicos da Direita: a Maldade

Num país onde há uma estranha equivalência entre políticas sociais e políticas públicas, tudo o que implique devolver às pessoas a responsabilidade pelas suas vidas e, em certa medida, pelas vidas dos que as rodeiam, é sempre visto como uma crueldade. É confortável renunciar às nossas obrigações a favor de uma entidade abstracta mas omnipresente. O problema é que a liberdade implica responsabilidade e, parafraseando o George Bernard Shaw, é precisamente por isso que ela é temida. A agenda da direita, com a sua defesa da subsidiaridade, esbarra inevitavelmente num país onde abdicamos da nossa liberdade individual por facilitismo.

16.2.09

Limites Telegénicos da Direita: o Liberalismo Contra-Intuitivo

A comercialização actual do liberalismo adoptou a estratégia de o descrever como contra-intuitivo, ou seja, devia ser intuitivo para a generalidade das pessoas mas só o é para uma elite (liberal). Esta formulação é útil para congregar liberais mas, depois de congregados, coloca-os na ingrata posição de, recorrendo ao esquematismo, provar a estupidez do próximo.

Limites Telegénicos da Direita: Conservadorismo e Moralismo

Um moralista pode ser definido como alguém que nos quer convencer (se possível obrigar) a viver a nossa vida de acordo com princípios morais que o próprio defende, mas que não segue necessariamente. O problema do conservadorismo como programa político, e não como método, é o facto de não ser dissociável desta definição de moralismo. E, se há coisa que ninguém atura, é um moralista. A começar pelos próprios.

15.2.09

Limites Telegénicos da Direita: a Semântica

O debate circular sobre o que é exactamente a direita pode ser intelectualmente estimulante mas é pouco apetitoso para o homem comum. É uma perda de tempo tentar explicar às pessoas que não existe um conservadorismo mas vários conservadorismos, que o conservadorismo anglo-saxónico é bom e o continental é mau, ou que, na mesma linha da raciocínio, não há um só liberalismo. É uma perda de tempo não porque essas distinções não existam mas, porque tentar "esclarecer" desta forma é o mesmo que tentar "esclarecer" que verde não é verde mas sim uma mistura de amarelo e azul. Por muitas virtudes que o amarelo tenha relativamente ao azul, tentar acabar com o verde em nome do rigor é apenas uma forma académica de fazer das pessoas parvas.

11.12.08

Da Solidão VII

A ser verdade que o CDS sempre procurou ser a voz de quem não tem voz, é urgente entender que, hoje em dia, também esse grupo se alterou substancialmente. Numa certa visão clássica, é a miséria que cala as pessoas. No entanto, o que realmente cala as pessoas não é a miséria, mas sim a escravidão que ela implica. A pobreza rouba-nos a liberdade e se há coisa que falta à democracia portuguesa, é precisamente liberdade.

Quando um regime insiste em repetir as mesmas receitas, projectadas pela mesma canalha, executadas pela mesma burocracia e com os mesmos destinatários, não há liberdade. Pode existir uma democracia formal mas, como disse o Tocqueville, a democracia e o socialismo só têm uma coisa em comum: a igualdade. A democracia procura a igualdade na liberdade, enquanto o socialismo quer igualdade na subserviência.

Não havendo em Portugal uma ditadura é fácil menosprezar a ausência de liberdade negativa. O carácter administrativo do colectivismo deslavado em que vivemos não é dado a romantismos. No entanto, é um programa que nos acobarda e que nos desgasta silenciosamente. Vai alimentando direitos, liberdades e garantias, com os deveres de uma minoria dispersa. Uma minoria cuja felicidade não foi comprometida por uma baixa auto-estima mas sim pela enfermeira que trata da marcação de consultas nos centros de saúde das suas respectivas áreas de residência.

O CDS devia ser a voz desta minoria e devia ser este o propósito da direita que o CDS procura representar: resgatar da sombra os excluídos pelo socialismo.

28.11.08

Da solidão VI

A agenda liberal e o ideal social da democracia cristã, por serem facilmente adoptáveis pelo "centrão" em caso de necessidade (como aliás já aconteceu), colocam um problema estratégico básico ao CDS: para sobreviver terá de optar entre uma tentativa de liderar uma alternativa de direita, e a continuidade do seu estatuto de partido charneira do regime. O problema da primeira opção é a manifesta falta de meios do CDS, a falta de "capital social". O problema da segunda é o seu parasitismo em larga medida indigno.

Este dilema estratégico remete-nos para um problema mais vasto: qual é o papel de um partido que se situa num dos extremos do espectro democrático? Resumidamente, defender ideias que o centro não pode defender. Estas, por sua vez, dividem-se em ideias que ninguém pode defender com seriedade e ideias que alguém devia defender. Neste quadro de análise, uma vitória de um partido de direita minoritário resume-se à derrota prática da extrema-esquerda (já que a derrota teórica é indiscutível) e ao fim da inevitabilidade da social-democracia em que o país vive ensopado.

17.11.08

Da Solidão V

O Roger Scruton disse, e bem, que a liberdade de escolha, ou seja, a liberdade "formal", seria inútil como princípio orientador sem um conteúdo que a sustente, sem um fundamento "material". No entanto, só num país em que a maioria das pessoas não se incomoda com este pluralismo político monocromático, onde todos podemos defender o que quisermos desde que seja uma variante mais ou menos feroz do socialismo, é que a liberdade de escolha, mesmo na sua versão instrumental, pode ser vista como desnecessária. Talvez seja isto que nós merecemos mas, apesar de tudo, a representatividade do sistema eleitoral permite-nos sonhar com uma alternativa de direita que seja algo mais do que um amargurado vestígio reaccionário ou um liberalismo colado com cuspo.

Dar um conteúdo a essa liberdade formal que gozamos passa sobretudo pela subversão, pelo abandono do modelo de fazer política que tem como único objectivo ser mais eficiente do que os outros partidos na procura do voto e que, na sua mais venerável encarnação, confunde estratégia com visão. Mesmo assumindo que a única medida do sucesso de um partido é o seu número de votos, se o CDS se limitar a tentar copiar outras forças partidárias, sem meios para o fazer e assombrado pela respeitabilidade a que se arroga, vai inevitavelmente cair num populismo indigente. O populismo é uma estratégia tão válida como qualquer outra mas, sendo fácil ir cada vez mais longe quando se trata de nivelar por baixo, há um custo de oportunidade claro em tentar ir atrás de um voto boçal e esse custo traduz-se num futuro irrisório.
 

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