9.11.09

Leituras


(imagem daqui)

Bom editorial do Francisco Camacho no i de hoje a propósito do expectável avanço por parte do governo da discriminação positiva das mulheres, em nome da Igualdade.

A passagem-chave:

"As mulheres podem e devem ser tratadas em função da única diferença inescapável que têm em relação aos homens e que, na maior parte dos casos, as prejudica seriamente no mundo do trabalho: a maternidade. Aí, sim, o Estado tem um papel importante que se abstém de desempenhar; aí, sim, reside a verdadeira desigualdade entre homens e mulheres.

A Igualdade (com maiúscula) condena as mulheres a um novo estigma: o de que, à partida, não precisam de mérito para chegar onde quer que cheguem."

6.11.09

Os Meus 15 Minutos de Fama (Relativa)


Esta semana fui à rádio com o João Távora. Quem estiver interessado em ouvir, pode fazê-lo hoje a partir das 18h na Rádio Europa, ou mais tarde em podcast aqui.

Formas Radicais de Estimular o Crescimento

Para além de reduzir o défice, ao desviar receitas do orçamento de traficantes para o orçamento do Estado, a liberalização das drogas também faria algo para estimular o crescimento.

Neste momento, ser negociante de estupefacientes tem "custos de contexto" complicados. Mesmo tendo em conta a relativa incapacidade das autoridades em combater o tráfico, desenvolver uma actividade ilegal implica gastar somas avultadas a tentar não ir parar à cadeia. Avançando com a legalização, este dinheiro que actualmente é desperdiçado seria poupado. Ou seja, haveria um ganho de produtividade imediato.

Por outro lado, os recursos da polícia poderiam ser transferidos para a investigação e prevenção de outros crimes, crimes com vítimas, ao contrário do comércio de drogas que é principalmente um crime com clientes.

É óbvio que nada disto é linear mas é suficientemente linear para perceber que neste momento os impactos sociais negativos do consumo de drogas são agravados pela criminalização.Talvez fosse altura para experimentar algo diferente.

4.11.09

Formas Radicais de Reduzir o Défice




Enquanto a maior parte das causas fracturantes se resumem quase exclusivamente a questões morais válidas, a questão da liberalização das drogas envolve sobretudo uma dose saudável de cegueira. Os exemplos recentes da violência no Rio de Janeiro e no México, ou a rotatividade de zonas fora-da-lei pelo país fora, são consequências dessa mesma cegueira. Uma cegueira que nos obriga a todos a suportar os custos de uma guerra impossível de ganhar apenas porque se instituiu que a venda de droga devia ser criminalizada em vez de ser tratada como um problema de saúde pública, tal como acontece com o tabaco ou com o álcool.

Agora que as nossas contas públicas estão oficialmente a caminho do descalabro, talvez fosse altura do governo se dedicar a um "progressismo" útil, assumindo que no que diz respeito ao negócio da droga, o Estado devia limitar-se a liberalizá-lo, regulá-lo de forma a desincentivar a sua utilização, a cobrar impostos e a ajudar a tratar as pessoas afectadas. Até pode ser que um dia este passe a ser para o Estado um negócio tão bom como é o do tabaco.

2.11.09

Diferenças


Há uns tempos, passámos a descrever-nos como um "país desenvolvido". Deve ter sido pela mesma altura em que ganhar um jogo de futebol por 3-0 passou a ser "uma goleada". O problema é que todos os dias a realidade refuta estes devaneios semânticos. No futebol, para mal dos meus pecados, o Benfica anda a recuperar uma certa pureza linguística. Já na política, como é sabido, os redentores escasseiam.

Veja-se o exemplo da história da extinção da Unidade Técnica de Apoio Orçamental. Em teoria, a UTAO seria o equivalente nacional do Congressional Budget Office americano. No entanto, enquanto nós andamos a discutir a continuidade de uma unidade com duas (!) pessoas que ajuda a Assembleia da República a fiscalizar as manobras orçamentais do governo, nos Estados Unidos leva-se a democracia mais a sério. Além de fiscalizar as questões orçamentais, o CBO faz algo de extravagante: avalia publicamente o impacto nas contas públicas das ideias peregrinas do Congresso.

Foi o que aconteceu recentemente no caso da proposta de reforma do sistema de saúde americano, onde as suas estimativas servem para ancorar o debate político, não para o substituir. Por cá, o nosso "desenvolvimento" mal dá para garantir uma aparência de separação de poderes, quanto mais para nos salvar da miséria que resulta da condução dos destinos do país com base na fé.

O Blog como Dilema


29.10.09

Passos Coelho, o Jovem Sindicalista (II)

Ainda sobre este tema, vale a pena ler o Tiago Moreira Ramalho. As entrevistas são realmente tramadas. Vamos ver o que nos reserva a de hoje.

Passos Coelho, o Jovem Sindicalista


Ontem, um Pedro Passos Coelho mais incisivo e menos laboratorial foi à SIC-Notícias expôr a sua visão do país. Quando lhe perguntaram se aumentaria os salários do funcionários públicos este ano, respondeu o seguinte:

"É muito difícil não aumentar porque os funcionários públicos estiveram durante praticamente cinco anos sem aumentos, a perder poder real de compra. Portanto nós não podemos encarar todo um grupo social muito grande, e em Portugal esse grupo é de facto muito extenso, e não podemos dizer a todas essas pessoas que eles pagarão sistematicamente agora a factura da despesa do Estado."

Esta singela declaração, fazendo eco do mais ofensivo sindicalismo, mostra os verdadeiros limites da hipotética renovação de um PSD liderado por este senhor. Face "a um grupo social muito grande", o Pedro Passos Coelho, corajosamente, não desperdiçaria a oportunidade de comprar os seus votos. O "grupo social muito grande" também conhecido por "os restantes portugueses", que paguem a factura.

O Que É Meu É do Arq.º Passos Leite



Para ter a certeza que ninguém lê este post, vou começar com uma citação do Código Civil:

"O proprietário goza de modo pleno e exclusivo dos direitos de uso, fruição, e disposição das coisas que lhe pertencem, dentro dos limites da lei e com observância das regras por ela impostas." - Artigo 1305.º

Este artigo supostamente define o conteúdo do direito de propriedade em Portugal. O que "o legislador" se esqueceu de referir neste artigo é que os tais limites ao direito de propriedade seriam as opiniões do Arq.º Passos Leite.

27.10.09

Leituras

A propósito do papel do Estado nas causas fracturantes, vale a pena ler este texto do Rui A. no Portugal Contemporâneo.

A Desigualdade É Para as Ocasiões


Bem sei que uma média vale o que vale mas, também sei que duas médias valem mais ou menos a mesma coisa. Em 2005 (último ano em que há dados disponíveis), o salário médio no sector público era de €1.491. Nesse mesmo ano, o salário médio no sector privado era de €859. Por hora, os valores eram €10,5 e €5,5 respectivamente. Num caso temos um prémio de 73% relativamente ao sector privado, no outro, temos um prémio de 91%. Ou seja, aparentemente confirmam-se as intuições: na função pública trabalha-se menos e recebe-se (muito) mais, em nome não se sabe exactamente do quê.

É por isso que quando saem notícias de que os sindicatos da função pública querem aumentos na entre os 3% e os 4,5% para 2010, depois de terem tido aumentos reais acima de 3% em 2009, não consigo evitar render-me à indignação que estas notícias pretendem incitar. E faço-o de bom grado. Os sindicatos argumentam com perdas de poder de compra e eu só consigo pensar no que o desemprego - um azar a que os funcionários públicos são poupados - faz ao poder de compra dos restantes portugueses.  

Fontes: Revista Visão, Banco de Portugal, Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público.

"Walt Whitman Thinks You Need New Jeans"


26.10.09

Ainda o Terceiro-Mundismo de Quem Não Pensa Como Eu

Confesso que tenho alguma aversão a estes senhores. Não tanto pelos seus objectivos mas pela forma como pretendem atingi-los. Para além do incentivo à participação cívica em nome de uma Lisboa melhor, o que à partida seria meritório, o fio condutor do movimento parece ser uma reacção visceral à estupidez dos lisboetas que não pensam como eles. A começar pelos construtores, passando pelos diferentes serviços camarários e acabando numa razoável parte da população lisboeta. Não digo que não haja pontos válidos em muitas das críticas que fazem mas, a postura de que esta corja de malfeitores não os merece é algo, digamos, contra-producente.

Veja-se este exemplo. A tese do post parece ser a de que os proprietários dos apartamentos do tal edificio são estúpidos porque, ao tentarem melhorar as suas casas, acabaram por as desvalorizar. A desvalorização terá tido origem, por um lado, na descoordenação das alterações, descoordenação essa que acabou por desfigurar o edifício, por outro, no mau gosto das intervenções. O problema da descoordenação é um ponto válido mas secundário, o do mau gosto, é uma porta aberta para todo o tipo de crimes.

Antes de chegarmos à estupidez dos proprietários, convinha começar pela estupidez dos arquitectos que teimam em fazer varandas inúteis. De seguida, poderíamos falar da estupidez das autoridades competentes que não estão particularmente interessadas em fazer cumprir a lei. Aí chegados, já estaríamos em condições para discutir o tal problema da descoordenação entre proprietários, problema eventualmente atribuível à sua estupidez mas que me parece poder ser bastante atenuado se a discussão se ficar pelos dois pontos prévios.

A questão do mau gosto tem uma solução simples: uma coisa chamada direitos de propriedade. Não estão muito em voga por estas bandas mas são úteis porque foram criados precisamente para evitar que os gostos individuais tivessem força de lei.

É certo que a Lisboa actual é, lamentavelmente, a Lisboa que muitos dos seus habitantes merecem. Mas também é certo que, apesar de tudo, a cidade merece arautos que não tentem resolver os seus problemas propondo "soluções" iguais às que nos trouxeram até este ponto. Os limites do elitismo como princípio orientador de políticas públicas estão bem à vista.

Leitura complementar: O Terceiro-Mundismo de Quem Não Pensa Como Eu

22.10.09

Para Apreciadores: Philip Roth

O vídeo de uma entrevista exclusiva da Tina Brown ao Philip Roth, a propósito do seu último livro, "The Humbling".


Maquiavel de Alpiarça



Há quem teime em levar demasiado a sério aquela ideia de que a política é a arte do possível e se recuse apreciar o valor filosófico do Dilbert. É o caso da Associação Nacional de Proprietários. Décadas depois dos seus associados terem sido expropriados sem direito a indemnizações, o melhor que conseguem fazer é exigir ao governo a imposição de uma renda mínima de 50 euros para os contratos de arrendamento anteriores a 1990. Presumo que isto seja a noção que o António Frias Marques, presidente da ANP, tem de compromisso. A mim parece-me que esta ideia está mais próxima da noção de parvoíce.

A ANP pelos vistos quer arranjar uma guerra com 234 mil agregados familiares (60% dos "contratos antigos") em nome de uma ridicularia. Posso estar enganado, mas parece-me que se vamos alienar a grande maioria das pessoas com quem vamos ter de negociar uma reforma digna desse nome da lei do arrendamento, devíamos fazê-lo com alguma audácia. Por exemplo, negociando uma reforma digna desse nome. Caso contrário, ao "vender" por tuta-e-meia décadas de uma injustiça gritante, não só estamos a adiar essa reforma, como a confirmar uma suspeição miserável: a de que o direito à indignação pátrio se esgota realmente no fórum da TSF.

21.10.09

Grandes Frases

Um debate intelectual no PSD é tão provável como - sei lá - a frase "quero fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas" aparecer num romance do Henry James.

Apertar o Cerco (II)

Curiosamente, a propósito disto, o Público de hoje traz uma notícia de um estudo da Amnistia Internacional sobre percepções da pobreza em Portugal em que 77 por cento dos inquiridos têm pouca ou nenhuma esperança na recuperação de situações de pobreza. Nesse mesmo estudo, onde aparentemente uma parte significativa dos inquiridos diz que o Governo é que tem a responsabilidade de resolver o problema, a Amnistia Internacional diz que isto pode indicar "uma demissão colectiva dos cidadãos face às suas directas responsabilidades na criação e manutenção dos fenómenos de pobreza e de exclusão social". Até a insuspeita Amnistia Internacional parece começar a desconfiar dos resultados da compaixão socialista.

Apertar o Cerco


 (imagem daqui)

É encorajador saber que a esquerda tem soluções inovadoras para os problemas do país. Neste post, o Rui Pena Pires apresenta uma proposta para uma "reforma fiscal de esquerda" do IRS: aumentar as taxas e aumentar a progressividade. Traduzida por miúdos, trata-se da velha máxima dos ricos que paguem a crise, agora actualizada com o nobre propósito de evitar "subordinação do comportamento empresarial ao espírito do capitalismo financeiro".

Isto é uma visão deprimente do país porque não passa de uma resposta política a uma situação em que os portugueses não têm qualquer esperança de ascensão social. Em Portugal os ricos estarão sempre susceptíveis a um reforço da redistribuição porque, no fundo, ninguém acredita na possibilidade de um dia se tornar rico. Para a esquerda presumo que isto seja motivo de celebração, afinal de contas este triste fado garante o papel do Estado na sociedade. Como diz o Rui, "não é pois preciso inventar a roda, basta continuar a percorrer o caminho iniciado durante o primeiro governo de José Sócrates". Exactly my point...

20.10.09

O Terceiro-Mundismo de Quem Não Pensa Como Eu

Na notícia que eu referi aqui, o Arq.º Passos Leite, coordenador de uma coisa chamada Estrutura Consultiva do PDM de Lisboa, diz o seguinte: "É preciso inverter a tendência de só recuperar as fachadas, que considero um pouco terceiro-mundista". Eu também considero a tendência terceiro-mundista mas felizmente não estou em posição de impor a minha opinião aos lisboetas.

19.10.09

Certificar o Património


(Imagem daqui)

Na sexta-feira passada, o i trazia uma notícia eloquente: parece que há mais de mil pedidos de classificação de património à espera que o IGESPAR resolva fazer o que lhe compete, alguns dos quais com mais de vinte anos. Enquanto isso não acontece, os candidatos a património vão caindo aos bocados. 

Há quem fique indignado com a vadiagem do IGESPAR mas a triste realidade é que a classificação do património não passa de uma certificação que só por milagre faz alguma coisa para garantir a preservação do nosso legado comum. Como no caso da certificação energética, a classificação do património impõe comportamentos aos proprietários dos imóveis em vez de exigir resultados, logo, é natural que acabe por não haver uma ligação entre os dois.

Na prática, é apenas um instrumento que o cidadão comum tem para impedir que os malandros dos construtores deitem prédios abaixo, permitindo assim que seja o Estado a deixá-los ruir.

Há Asfixias e Asfixias


16.10.09

O Preço da Salvação do Mundo


Depois da eleições, os portugueses descobrem coisas fabulosas. Primeiro descobrem que afinal os impostos vão aumentar, depois descobrem que as energias renováveis que vão salvar preventivamente o mundo e catapultar-nos para a vanguarda da técnica afinal têm um "sobrecusto" relativamente à energia tradicional. O que vale é que são só 700 milhões de euros. Quando comparados com os 1.890 milhões que ainda faltam pagar do défice tarifário, só se pode chegar à conclusão de que a salvação do planeta, por oposição à salvação da EDP, é uma pechincha.

15.10.09

Equilibrismo (II)

À esquerda, o cenário é de contenção forçada. O BE, depois de, nas autárquicas, ter visto o seu próprio sonho imperialista confrontado com a dura realidade, já olha com outros olhos para o sapo que engoliu nas eleições legislativas. Nada como sermos relembrados da mísera extensão do nosso poder para nos ser devolvida, mesmo que temporariamente, a humildade. O PCP parece ter finalmente entrado num processo de erosão, uma erosão sofrida, silenciosa, mas que se espera implacável.

O PSD, sendo o partido que tem menos a perder, será naturalmente o mais tentado a encurtar a estadia do Eng.º em S. Bento. Daí já andar a recorrer a artifícios e a declarações de independência para tentar disfarçar a sua relativa irrelevância nos próximos tempos. No seguimento da dúvida metodológica que a líder do PSD apresentou como programa ao país, avizinham-se dias de alguma indignidade.

O CDS tem a difícil tarefa de aguentar enquanto puder os seus 21 deputados para os usar como base para outras andanças. Isto implica suportar esta legislatura enquanto não solidificar o seu resultado e simultaneamente não trair o seu eleitorado. É nestas altura que dá jeito ter tido o decoro de produzir um documento com mais de duzentas páginas a dizer ao que se vem, antes das eleições. Facilita, por um lado, as negociações, por outro, a prestação de contas ao eleitorado.

Equilibrismo

Em Portugal teme-se pela governabilidade. Isto só acontece porque há um entendimento geral de que os políticos são suicidas. A governabilidade sustenta-se em equilíbrios e o que o eleitorado produziu nas últimas legislativas foi precisamente isso: um equilíbrio. Todos os partidos sabem que, até prova em contrário, não conseguem melhorar os resultados obtidos, isto significa que no imediato nenhum deles está interessado em minar a governação socialista para ter uma segunda oportunidade.

13.10.09

Galhos e Macacos

A minha subscrição da Atlantic é-me enviada a partir Auckland. Bem sei que hoje em dia achamos normal comprar na mercearia da esquina o fruto comestível da rambuteira, de tonalidade avermelhada e forma oval, coberto de espinhos, e de cujo pericarpo se pode extrair tinta preta, mas algo tem de estar errado neste circuito de distribuição. Afinal de contas, da última vez que olhei para um planisfério, a Nova Zelândia estava nos antípodas de Portugal e, segundo consta, a distância ainda é um factor relevante no cálculo de custos de transporte.

Sendo assim, das duas uma, ou os neo-zelandeses são os chineses do processamento de correio ou a técnica do salto quântico foi aperfeiçoada desde os tempos em que o Scott Bakula e o Dean Stockwell andavam pelos ecrãs de televisão a ganhar Emmys pelo seu "Outstanding Achievement in Hairstyling for a Series". Qualquer uma das alternativas parece pouco plausível. É mais provável que a rapaziada da Atlantic tenha mais jeito para escrever artigos cheios de pathos sobre o Israel moderno do que para a investigação operacional, o que, apesar de tudo, é reconfortante.

9.10.09

O Público de Serviço

22 de Maio de 2009: Dívida da RTP está 94 milhões acima do previsto.

09 de Outubro de 2009: Estado injecta mais 62 milhões de euros para aumentar capital da RTP.

Como é bom viver num país onde decorre da Constituição que o Estado tem a obrigação de "garantir o acesso de todos ao entretenimento de qualidade", como reza o artº 51 da Lei da Televisão.

3.10.09

Os Torcionários (II)

Na "Europa", na melhor das hipóteses, há uma relação comercial com o poder. De cinco em cinco anos mandamos 736 eurodeputados para Estrasburgo e em troca recebemos directivas. A democracia é para as ocasiões.

Os Torcionários


Parece que os irlandeses lá baixaram a bola. Não tinham percebido à primeira por isso agora foram "informados" sobre a decisão certa. Como diz o Andrew Stuttaford, a "Europa" é uma ideia que foi sendo imposta aos seus cidadãos com recurso a um cocktail de subornos, intimidação, manha e secretismo. O referendo irlandês é só o último exemplo deste modo de funcionamento.

2.10.09

De Regresso

Dois meses depois, estou de regresso a casa. A minha participação no Rua Direita pode ser consultada aqui.

3.8.09

Movimentos Pendulares

Esqueci-me de avisar os meus dois intermitentes leitores e as pessoas que o Google manda até aqui à procura do termo "cuspir sangue" que, desde a semana passada e até ao final de Setembro, estarei no Rua Direita.

25.6.09

Arquivistas de Improviso

Ao ouvir o "nosso" Ricardo Reis a ser entrevistado no Econtalk, fico com a sensação de que as mentes brilhantes se revelam ao comum dos mortais não pela qualidade do seu raciocínio, que normalmente não temos unhas para avaliar, mas pela sua capacidade de, em conversa corrida, apresentar argumentos em listas numeradas e posteriormente referir esses argumentos pelas suas respectivas posições nas ditas listas.

3.6.09

Uma Passagem pelas Urgências: Notas Breves

1. Critérios administrativos têm prioridade sobre o atendimento ao doente, excepto (presumo) nos casos em que há manifesto perigo de vida. Ninguém é tratado sem ter preenchido "a ficha", sem ter posto "a vinheta", sem ter carimbado "a credencial".

2. Se a triagem servisse simultaneamente de consulta para os casos sem gravidade, 95% das pessoas que estão nas urgências iam para casa em trinta segundos em vez de quatro horas.

3. A componente tendencialmente gratuita do Serviço Nacional de Saúde tem um efeito perverso nos seus utilizadores: faz com que estes vejam (legitimamente) o SNS como um direito, ou seja, faz com que exijam sempre o possível e o impossível, independentemente da gravidade da situação. Por outro lado, como constitucionalmente o direito à saúde e o direito à escolha nos serviços de saúde não foram combinados, o SNS é visto como uma fatalidade para uma determinada franja da população. Isto significa que não podem reclamar quando são ignorados porque não têm alternativa.

4. A componente tendencialmente gratuita do Serviço Nacional de Saúde tem um efeito perverso nos seus funcionários: faz com que estes vejam o utilizador como um borlista, independentemente do que este tenha pago através dos seus impostos. Isto significa que os seus funcionários se vêem com o dever moral de transformar numa penitência todas as passagens dos portugueses pelas urgências dos hospitais. Especialmente quando essa penitência não está garantida por motivos de saúde.

5. Entre um "lanchinho" nocturno e uma sala cheia de pessoas à espera de serem atendidas, a escolha dos enfermeiros, médicos e auxiliares é óbvia.

6. O alarmismo e o rendimento são, em média, inversamente proporcionais.

7. O pós-modernismo pode andar por aí mas são as mães que continuam a entrar nas urgências com as crianças ao colo.

28.4.09

Por Falar em Austeridade...

Parece que anda por aí um livro recomendável a menos de €10:


Da recensão na Atlantic:

"Kynaston doesn’t shrink from an understanding that’s deeply unsettling to those who like their history, their politics, and their worldviews neat (which is to say nearly all of us): the better grew out of the worse, the worse out of the better."

27.4.09

A Folga

Desde que se iniciou a voragem do investimento público que nos vai salvar da crise que muitos de nós, enquanto nos informamos sobre o regime fiscal da Ilha de Man, nos interrogamos sobre quem vai pagar esse investimento. Felizmente, o governo tem uma resposta peremptória: quem vai pagar é a folga. Mais precisamente, a folga orçamental que nasceu do intrépido reformismo deste executivo.

Ainda na recente entrevista à RTP, o Primeiro-Ministro reafirmou a disponibilidade da folga para financiar aeroportos, TGVs, auto-estradas, "apoios sectoriais", genéricos gratuitos, etc. Face a esta explicação, restam-nos duas hipóteses de interpretação:

1. O Primeiro-Ministro prevê que o défice se mantenha em valores à volta dos 3% do PIB, o que significa que se avizinha uma redução épica da despesa corrente do Estado.

2. O Primeiro-Ministro pensa que os 3% são meramente indicativos porque na prática o défice pode ir até onde for preciso para ganhar eleições.

Em Inglaterra, o próximo Primeiro-Ministro fala em austeridade. Em Portugal, nas mãos de um português normal, temos a folga.

13.4.09

N. do A.

A vida tem andado complicada, mas o pior já passou. Antes de retomar as emissões regulares, gostaria só de relembrar que o ónus da prova já foi invertido no que diz respeito à publicidade não endereçada e que os resultados não foram famosos.

30.3.09

Limitações Racionais II

A ideia original que motivou o meu post sobre os limites da racionalidade no domínio da regulação era a de uma aparente falha no cumprimento da missão das Autoridades da Concorrência deste mundo que não estava a ser discutida: deixar o mercado refém de uma qualquer organização apenas porque esta é "demasiado grande para falir" não é o exemplo acabado de um abuso de posição dominante?

Felizmente podemos confiar no "long tail" blogosférico para, mais cedo ou mais tarde, assistirmos a uma discussão interessante.

No Free Exchange: "Big banks can't be allowed to fail, and they know it. They're difficult to monitor, internally and externally. And they don't seem to be providing much in the way of scale economies, given the systemic risk they present. So break them up, right?"

No Market Movers do Felix Salmon: "Why Big Banks Should be Smaller".

Kevin Drum no site da Mother Jones: "Big companies are here to stay, and I suspect that any regulation stringent enough to keep banks small enough to fail won't be sustainable."

No Marginal Revolution: "We would be requiring regulators to estimate the net "size" of a bank financial position when banks themselves haven't been very good at doing that."

O Matt Yglesias sobre um relatório elaborado pelo Paul Volcker: "Volcker: Keep Banks Small Enough to Fail".

19.3.09

Avaliação de Políticas

Há uns tempos este senhor resumiu a avaliação de "soluções" políticas a três perguntas: qual é o seu custo? quais são as alternativas? como é que se sabe que é uma solução? Numa altura em que os partidos se desdobram em medidas para todos os gostos, torna-se difícil distinguir propostas que nos vão ajudar a sair da crise melhor do que quando entrámos, de propostas que vão apenas ajudar alguns de nós a sair das eleições melhor do que quando entraram. Já que aparentemente vamos financiar todo este voluntarismo com os nosso impostos, nada melhor do que receitas simples para moderar a euforia.

16.3.09

Leituras

Dois textos sobre o risco:

- Jump! If the economy is going to recover, Americans need to start taking risks again.

"The markets, and the economy as a whole, are continually buffeted by the twin forces of fear and greed. For the past year, fear has clearly had the upper hand. But over time, as fear subsides, our inborn in­stincts to improve our lot and desire for gains, and greed—Adam Smith would call it self-interest—will make a comeback."

- The Promise and Peril of the Freelance Economy: Self-employment has made America more productive, but at what cost to the self-employed?

"Unlike the traditional entrepreneur taking big risks to get rich, a lot of America’s modern independent workers [...] are uncomfortable figuring out how to cope with risk on their own."

15.3.09

Escravos Naturais

Há poucas coisas tão deprimentes como viver num país paralisado pelo medo de ser enganado. O português avança sempre para um negócio a assumir que é a parte mais fraca. Neste quadro mental de uma aristotélica "escravidão natural", um acordo mutuamente benéfico é apenas um acordo em que uma das partes está a ser intrujada mas ainda não o sabe. Para além de miserável, esta aversão quase patológica ao risco torna praticamente impossível a vida civilizada. Antes de se assinar o que quer que seja, há sempre quem chame o pai, o que, como é sabido, é uma das boas razões para se andar à pancada com alguém.

14.3.09

Estratégias Nacionais

"O Governo vai criar uma base de dados dos sem-abrigo em Portugal, no âmbito de uma Estratégia Nacional [...] que visa criar condições para que ninguém tenha de permanecer na rua por falta de alternativas."

Estranho mundo este onde o primeiro passo para ajudar alguém é metê-lo numa base de dados.

12.3.09

Limitações Racionais

Por entre múltiplas desgraças, esta crise está a ser fértil em novos temas para conversas de café. Introduziu termos técnicos como "o buraco" no vocabulário corrente e pôs-nos a discutir o carácter precursor da epidemia de "subprime" que arrasou os nossos subúrbios muito antes dos americanos terem inventado o produto.

Com a vulgarização da crise, também o risco sistémico entrou nesse circuito. Como em tantos outros casos de conceitos que ninguém entende, tratámos rapidamente de passar de uma área eminentemente técnica para o campo do combate doutrinário. A noção de "too big to fail" tornou-se tema de gritaria e serviu de base para ataques a uma visão muito particular da regulação, em que esta supostamente existiria para proteger o homem comum do "neo-liberalismo" e da ganância.

No meio da algazarra, a única conclusão a que se pode chegar para já é que a regulação não falhou por não ser actuante mas porque, parafraseando o Adam Ferguson, estamos permanentemente a tropeçar em factos que embora resultem da acção humana, não são produto da sua intencionalidade. Este modelo de regulação progressista fez com que mais uma vez caíssemos no erro de pensar que podemos eliminar a contingência através do planeamento e da racionalidade, em vez de nos prepararmos para lhe sobreviver.

11.3.09

Dissolução

Ao contrário do que os seguidores das profecias do Medina Carreira parecem pensar, dizer que não há solução não é uma solução.

Empreendedorismo de Estado II

Mais abusivo do que empreendedorismo de Estado, só mesmo a diplomacia económica, que não é mais do que empreendedorismo público no estrangeiro. Ou seja, o pior de dois mundos. Eu pensava que havia dificuldade por parte dos bancos em arranjar capital mas pelos vistos a CGD, tendo subarrendado o monopólio da violência legítima, só precisou de carregar num botão para nos ficar a dever 1.300 milhões no último ano e meio. Para compor o ramalhete ainda nos tornámos avalistas dos 500 milhões de dólares que a CGD vai usar para fazer um banco de investimento a meias com o José Eduardo dos Santos.

Eu diria que, para não ir mais longe, os 100.000 portugueses que vivem neste momento em Angola são prova de que não há necessidade de "apoios" por parte de bancos públicos. Não há falhas de mercado, apenas bons ou maus investimentos. Logo, por exclusão de partes, a única coisa a ser apoiada nestas manobras é a canalha cujos "projectos" são avaliados por critérios diferentes dos do mercado (também chamados critérios políticos, ou favores), em nome da cooperação internacional. Apoiada nos impostos do meu filho.
 

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